Quando eu ainda era adolescente, caí na asneira de perguntar à minha mãe sobre como eu deveria me portar diante da família de alguma potencial namorada. Ela falou maravilhas sobre o quanto a família é importante na vida de uma pessoa, que você ganha uma nova família quando se casa, que eu deveria conquistar a família da candidata, e por aí vai.
*Não satisfeito, fiz a mesma pergunta ao meu pai, a pessoa a quem eu deveria ter perguntado desde o princípio. A resposta foi curta e grossa, na forma de um conselho que, em alguns momentos, eu me arrependo de não ter seguido:
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_ Namore uma órfã, de preferência filha única.
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Inevitável pensar no conselho paterno depois de hoje, quando eu acabo de chegar de um daqueles famigerados almoços de família. E vocês sabem: pior que almoço com a sua família, só almoço com a família da esposa.
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O script foi o mesmo dos mil almoços anteriores: A cada parente novo que chegava, os mesmo assuntos iam sendo repetidos, nessa ordem:
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a) Críticas às minhas escolhas profissionais, principalmente ao fato de eu ter abandonado o Direito para ser professor de História.
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b) Algum comentário enojado sobre as minhas convicções políticas. Aqui cabe um esclarecimento: A maioria dos homens da família da minha esposa é de militares da ativa ou militares aposentados, quase todos da Marinha. Para eles, quem é de esquerda deveria ser fuzilado, o Geisel era um Deus e o Golpe de 64 livrou o Brasil da ameaça dos malditos comunistas comedores de criancinhas.
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c) Uma irritante insistência para que eu coma de tudo, inclusive do que eu não gosto, até sair pelas orelhas, sem que ninguém se importe com o fato de que eu tenho um colesterol pornográfico de tão alto.
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d) Alguma piadinha idiota sobre desempenho do Flamengo, esteja ele bem ou mal. Pois é, a família ainda é esmagadoramente vascaína.
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e) E, pra fechar com chave de ouro, cobranças sobre o fato de eu minha mulher ainda não termos filhos. Como se algum dos parentes fosse bancar o estudo das crianças até a faculdade. O pior é que nem senso de humor eles têm. Até hoje repercute mal uma brincadeira que eu fiz sobre esse assunto. Foi num dia em que, já muito puto pelos comentários intrometidos (e com umas caipirinhas nas idéias), eu sugeri adotarmos uma adolescente do Camboja, amiga da Angelina Jolie. Eu me diverti pra cacete, mas o mal-estar se arrastou por muitas reuniões em família. E não se pode dizer que esteja totalmente cicatrizado.
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O fato é que eu sigo o ditado popular: Família é como cu, cada um com o seu. E, mesmo assim, ainda saem umas merdas de lá.
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A liberdade de escolha feminina
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Diálogo verídico presenciado pelo Ogro numa fila de cinema. Os personagens são um casal de namorados, aparentado algo entre 20 e 22 anos.
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_ Querida, qual filme que você quer ver?
_ Qualquer um, amor. Confio no bom gosto do meu namoradinho, o que você escolher tá bom.
_ É que, nesse horário, tem esses quatro filmes que a gente pode ver.
_ Não tem problema, pode escolher qualquer um.
_ Que tal esse primeiro aqui? Ouvi dizer que é muito bom.
_ Ah, esse não.
_ Tem esse outro aqui, com aquele ator que foi indicado ao Oscar.
_ Logo esse? É muito violento.
_ No mesmo horário tem esse outro, com aquela atriz que você gosta (o namorado já faz a proposta meio irritado).
_ Não sei, eu não senti nada demais quando eu vi a propaganda desse filme.
Já muito puto, o namorado conclui:
_ Então vamos ver esse último aqui, pelo jeito.
_ Ah, esse é perfeito.
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E os dois se encaminham para a bilheteria, mas o namorado não se contém e, num gesto de puro masoquismo, pergunta:
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_ Você já queria ver esse filme desde o começo, por que não falou logo?
_ Ah, amor, eu queria que você escolhesse.
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